Atrás da cortina

Elaine Pauvolid*



O que mais me encantava nela era o som, a luz, algo superior e flutuante. Eram ondas, eram raios, era. E eu a deixei partir. Por que seria eu capaz de tanto? A meu ver, isso é o que mais importa nisso tudo... Não, nunca falei com ela. Eu a via. Passava todas as tardes sob minha janelinha. A pobre minha janelinha. E eu atrás. Atrás da cortina. Via através da trama. Um espaço entre os fios. Um pequeno quadradinho e minha delicada íris a contemplavam toda tarde. Era pontual. Sempre às cinco horas da tarde voltava com o embrulho pardo. Com pães. Pães para sua mãezinha. Ah, pobre mãezinha tão doente...

Também a via fazendo outras coisas. Indo levar a mãe para pegar a aposentadoria, certamente. Era bem no dia em que se faz fila nos bancos. Bem no dia em que não vou ao banco. Bem no dia em que eu, atrás de minha cortininha, tão suave e fina, me escondo e a persigo. Sim, isso já faz bastante tempo. Talvez anos. Saberia lhe dizer precisamente, mas, não quis contar quantos dias eu ficaria aqui acompanhando de longe. E a vi muitas vezes sair acompanhada não da mãe, mas, de um homem. Ela parece preferir os de cabelos escuros. Fiquei várias vezes a observar como se demorava com alguns deles na porta do edifício, como era carinhosa. Nunca nenhum entrou. Mas, já a trouxeram pela manhã muitos deles. Eram bons homens, pareciam. Nenhum ficou.Sabe por quê? Porque o único homem que lhe caberia seria eu, que me escondo. Eu nunca fui até ela.

Se ela algum dia me viu? Fiz tudo para que não me visse. Mas, tive a impressão, muitas vezes, que sabia de mim. Que nunca chegaria. Então, acho que é por isso que ela se dedicava a sua mãezinha com cada vez mais afinco.


Como a perdi? Bem, certa vez enquanto eu a contemplava docemente, vi um tumulto no início da rua. Tive vontade de lhe prevenir e gritar: entra na tua casa! Mas, engasgou a voz em mim. E o tumulto se aproximava. E vi quando o homem ameaçou a atirar no outro levando a mão na cintura. Vi sim. Vi mais que muita gente que estava ao lado dele, acho que até mesmo antes que o outro pudesse perceber, porque eu estava atento. Sempre estive atento. E também vi quando ela viu. Vi sim. Vi que ela pressentiu o perigo. E notei, com certo alívio, que ela escolheu ficar no meio da rua olhando a confusão que se aproximava e que não correu como as outras pessoas. Ela parecia esperar que o caos chegasse até lá. Eu consenti.


*Elaine Pauvolid é poeta com livros publicados, resenhista free lance com ensaios publicados em diversos jornais, edita a revista Aliás desde 2000, www.aliasrevista.net, site pessoal: www.elainepauvolid.net