Leopoldo e Virgínia


Elaine Pauvolid




O que mais me encantava em Leopoldo eram seus dedos longos e alvos. Lânguidos dedos. A maneira como sentava enquanto ouvia Maria Eduarda ao piano e o modo como ele reclinava seu corpo quando ria também nunca me passaram despercebidos. Ela o desprezava via-se com clareza toda vez quando sozinhos na varanda. Nunca os vi tocando um no outro. E ele nunca faltou a nenhum sarau.

Toda vez que engole a seco, quando fica evidente que seus anseios não lograrão êxito toca-me profundamente. O hiato que nos separa, a indiferença com a qual se mantém de pé em algum lugar de onde posso vê-lo bem é proporcional ao meu desejo por ele. Ouço-lhe dizer-me ao pé do ouvido: Vê como me maltratam, como sou infeliz, como jogam fora tudo que posso dar. Vem, cata. Vou a seu socorro e ele parece que não me pode ver. Que sou um espectro, que já estou morta há muito tempo e que o persigo, fracassada, desassossegada...


Não sei mais o que fazer para fazer curar este tumor terrível em mim. Inveja, ciúme, despeito, rejeição, tudo isso dentro de minha própria casa, com a conivência dos meus pais...Desabafar-me com minha irmã? Dizer o que a ela? Maria, sou apaixonada pelo seu pretendente, deixe-o para mim se não o quiser de verdade. Se ela disser que posso dedicar-me a ele e ele me rejeitar? Sim, ele vai me rejeitar. Vejo que ele a quer e só a ela. Sua indiferença em relação a mim é tão patente como o desinteresse dela por ele... Chega a ser patético. É por isso que vem aqui. Só por causa dela. Ele a está cortejando faz dois meses. Neste tempo todo, pouco dedicou a mim. Um ou outro olhar perdido pousado em minhas pernas, no meu colo, em mim, porque sou mulher e um pouco bonita. Nada mais profundo.


Sim, eu tentei falar com ele uma vez. Foi delicioso, a princípio. Ele estava sozinho na sala. Batia com a mão direita no joelho esquerdo fazendo certamente o acompanhamento de alguma música que deveria soar bem nítida em sua cabeça. Tive medo de assustá-lo e cruzei-lhe a frente lentamente, como não o visse. Fui até o móvel encostado à parede a sua direita. Abri uma pequena gaveta, apanhei um objeto qualquer e dirigi-me nervosamente a ele. Maria Eduarda não demora. Ele me sorriu ternamente, o que retribuí. Agora é o momento, agora, agora, agora.

 
A garganta fechou-me. Nada poderia sair dali além daquilo. Sorria timidamente. Ele inocente e limpo, eu ladra e estrategista. Não, Maria Eduarda não te ama. Mas, o que isso pode mudar na sua indiferença a mim? Nada. Então, subitamente odiei-lhe com vigor, o que me fez reparar na calça curta demais, na camisa fora de moda e no cabelo um tanto ensebado àquela hora da tarde. Imaginei que não tivesse se banhado até àquela hora e nem teria intenção de fazê-lo mais tarde. Perguntei-me o que fazia na sala sozinha com o pretendente de minha irmã.


 - Será que hoje sua irmã vai tocar algo realmente para mim?

Leia meus pensamentos e eu lhe pergunto: você falou comigo? Pergunta se minha irmã lhe tocará algo? Absolutamente, meu caro. Ela nunca tocará nada para você. Desconfio até se algum dia ela tocará a algum homem...Não vai querer fazer-me sua confidente... Está desesperado. Ele percebe.

 

-Claro que sim, ela vai tocar sim.


-Não creio. De toda forma, sou persistente.


-Sim, a esperança é sempre o derradeiro ânimo.


-Nós podemos fazer companhia um ao outro enquanto Maria Eduarda não se apresenta...

 
-Por que persiste se percebe que ela não está correspondendo a seus sentimentos?

 
-Ela lhe falou alguma coisa?


- Não, de jeito nenhum. Mas, você deu a entender...


-Sim, tenho a sensação de que ela não está interessada em mim. Na verdade, não sei por que persisto...


-Então acate simplesmente o impulso.


- Sim, é o que tenho feito.


- Então persista - Acabo de fazer algo que definitivamente não entenderei jamais.
De qualquer modo é melhor fazer algo bom a algo ruim.


-Sim. Mas, darei um prazo.


-Muito bom.


-Sim, depois disso, cara Vírginia, creio que só nos veremos na missa.


- Ora, que isso? Podemos nos ver muitas outras vezes.


-Sim. Mas, referia-me a sua irmã.


Insinua-se? Toma como certos nossos encontros? Quer dizer-me que se ela não quiser, tentará comigo? Aceitarei tão pouco? Será que ele realmente me oferece algo?

 
-Você não tocaria algo para nós enquanto sua irmã não se apresenta?

 

-Desculpe-me, mas, acho que ela não iria gostar...

 
-Puxa, mas, seria um bom modo de sabermos se ele me despreza ou não. Perdoe-me. Estou tão cego que lhe fiz uma proposta absurda...

 
Bem, é agora que tudo será selado. Se ele agradece e se despede posso ir chorar no meu quarto pelo dia inteiro, se ele resolve ficar e me ouvir tocar, serei uma nova mulher a partir de então. Meu pai está dando a notícia de que... Bem, veja só
como ele se decepciona... Sim, definitivamente, meu caro, ela não virá. Ele vai virar as costas e ir embora.  
Lembrar-se-á de despedir-se de mim e voltará com um sorriso estendendo a mão.

Vai arrasado, mal pode sustentar seu corpo. Se volta o olhar e me vê à janela, aceno-lhe e sorrio ternamente.
Seria capaz mesmo este homem de dar como certo algum contato comigo caso minha irmã desista? Certamente que não quis sugerir isso... Veja só o modo derrotado e cambaleante com o qual segue pelo calçamento. Veja, Virgínia, no que este homem foi transformado. Não, ele não pensa em você. Sim, fiz bem em não abrir meu coração. Estaria jogado neste momento no chão da sala sob os pés dos móveis tudo que eu tivesse dito, fosse a quem fosse, a ela ou a ele. Um gesto inócuo. Vamos guardar tudo isso bem guardado em algum lugar dentro do corpo, sabe-se Deus onde, fechar com a chave, três voltas. Fechar as cortinas, tingindo a rua deste bege tão calmante, as rosas chá da amizade e do respeito, desejando que aquele homem resista a sua dor. Que pode fazer minha irmã se não está interessada nele? Sinto muito, senhor, aqui nesta casa, não temos o que deseja. Fiz muito bem em não contar nada. Fiz tão bem como estão bem bordadas e cerzidas estas cortinas. Preciso lembrar-me disso caso ele volte amanhã e depois. Preciso lembrar do modo como saiu humilhado desta casa, tentando sustentar alguma dignidade. Preciso lembrar do que acontece às pessoas que amam e que ousam tentar ser amadas. Preciso fechar meu coração da mesma maneira sensata com que são fechadas estas cortinas pesadas.

 

Sobre a autora:

Elaine Pauvolid, poeta e ensaísta, lançou o primeiro livro de poemas em 1998, "Brindei com mão serenata o sonho que tive durante minha noite-estrela...” , publicou artesanalmente o livro Trago, em 2002, com prefácio de Gerardo Mello Mourão, e, em parceria com os poetas Márcio Catunda, Tanussi Cardoso, Ricardo Alfaya e Thereza Rocque da Motta, lançou Rios, em 2003. Possui vários ensaios sobre literatura publicados em periódicos eletrônicos e impressos. Edita desde 2000 a revista eletrônica de cultura Aliás, www.aliasrevista.net. Atualmente é aluna do curso de artes plásticas do Parque Lage. Maiores informações sobre a autora: www.elainepauvolid.net.  Seu e-mail: pauvolid@olimpo.com.br